8.7.11

PUBLICADO NO IBAHIA


Entrevista: Márcio Meirelles conta novidades do Bando de Teatro Olodum

O ex-secretário também falou que não se arrepende de ter assumido a Secretaria de Cultura, entre os anos de 2007 e 2011

Emília Oliveira
(emilia.oliveira@redebahia.com.br)


Com 21 anos de trajetória, o bando de Teatro Olodum faz parte da história do teatro baiano. Sempre lançando montagens voltadas para o cotidiano, a companhia formada exclusivamente por atores negros já deu visibilidade a grandes nomes das artes cênicas como Lázaro Ramos e Érico Brás. Atualmente dirigido por Márcio Meirelles, um dos fundadores do Bando e ex-secretário de Cultura do Estado da Bahia, o grupo está com alguns projetos especiais.
Para saber de todas as novidades, o iBahia conversou com Meirelles, que também é diretor teatral, cenógrafo e figurinista. Entre outras coisas, ele contou que está analisando convites para estrear "Ó Paí, Ó" no Rio de Janeiro e "Bença" em São Paulo. O ex-secretário também falou sobre novas montagens e afirma que não se arrepende de ter assumido a Secult entre os anos de 2007 e 2011. Confira!
iBahia - A história do Bando de Teatro Olodum vai virar livro?
Marcos Uzel está escrevendo o segundo volume do livro "O Teatro do Bando negro", lançado em 2003. No primeiro volume, que já está quase esgotado, foi contada a história do grupo até 2002 e essa nova obra conta de 2003 até 2011. Na verdade, iremos lançar como um livro em dois volumes, acrescentando a história gráfica e fotográfica no primeiro. A previsão é que seja publicado no início de 2012.
iBahia - O Bando recebeu convites para estrear espetáculos em outros estados?Sim. Estamos analisando convites de estrear "Ó Paí, Ó" no Rio de Janeiro e "Bença" em São Paulo. Mas ainda não temos nada definido. Tudo vai depender do avanços das negociações.

iBahia - E em Salvador, qual a próxima montagem que o Bando vai estrear?
Vamos lançar no dia 22 de julho uma nova temporada do espetáculo Cabaré da RRRRRaça no Teatro vila Velha. Essa é uma peça que já existe há 14 anos e que tem uma resposta bem positiva do público. Ela vai ficar três semanas em cartaz.
iBahia - Mas vocês estão com algum novo projeto?Com certeza. Estamos preparando uma nova peça que vai chamar trilogiaRemix.DOC_aquartapeça. A montagem transforma a "Trilogia do Pelô" (Composta por "Essa é nossa praia", "Ó paí, Ó!" e "Bai Bai Pelô") em uma quadrilogia. É uma reflexão que faz uma remixagem das três pecas anteriores. Podemos dizer que é uma peça documentário, com depoimentos reais de pessoas que vivem e trabalham no Pelourinho. Além disso, queremos que as pessoas do Pelourinho interajam ao vivo na peça com depoimentos on line na internet.
iBahia - E qual a previsão de estreia desse espetáculo?Sou muito agoniado e às vezes digo que nasci de sete meses (risos). Queria que a estreia fosse logo, mas isso vai depender de uma maturação tecnológica do espetáculo. É um trabalho que exige muita pesquisa e ainda não sabemos quando poderemos estrear.
 
iBahia - Foi divulgado que a Rede Globo vai lançar a terceira temporada de "Ó Paí, Ó"...Sabemos que a Globo está cogitando uma nova temporada mesmo, mas isso ainda não está certo. O Bando interfere muito pouco nisso. O que consideramos importante é que os atores negros daqui da Bahia deixaram de ser objetos na televisão e passaram a ser sujeitos. Isso nos dá muito orgulho.

iBahia - Depois da exposição de "Ó Paí, Ó" na mídia por conta do filme e da minissérie global o público que vai assistir as peças do Bando cresceu?Não percebemos um aumento, não. É claro que o Bando ganhou uma visibilidade nacional, mas o grupo já tinha um público fiel que continua frequentando as peças e que gosta de saber o que estamos fazendo. Além disso temos atores que ganharam uma projeção como Lázaro Ramos, que sempre cita o Bando em suas entrevistas, Érico Brás e Regina Rodrigues. Com 21 anos de história, o bando deu muitos frutos e isso é ótimo.

iBahia - E para 2012, alguma novidade do Bando?
Estamos repensando o bando para ele ganhar sustentabilidade. Queremos uma tranquilidade maior para que possamos ter, no início do ano, o planejamento do ano inteiro. Consideramos que isso vai ajudar muito a execução dos nossos projetos e vai dar uma tranquilidade maior para os atores, diretores e todos os envolvidos no grupo. 

iBahia - Então o objetivo é tornar o Bando auto-sustentável?Sim. Acho que buscamos isso. Queremos que os integrantes do bando não passem por nenhum tipo de dificuldade, nem financeiras. E isso é importante. Agora posso me dedicar ao bando de uma forma que como secretário de cultura não conseguia.
iBahia - Em maio você promoveu a oficina "Teatro Para Quem Gosta de Rock'n Roll". Você tem planos que essa oficina vire espetáculo?O pessoal que fez a oficina ficou muito animado e querem que os encontros voltem a acontecer agora em julho, mas ainda estou analisando isso. Ainda não sei se vai virar espetáculo. Isso iria depender também dos participantes dos outros atores. Mas posso adiantar que eles querem muito compartilhar a experiência que tiveram. No momento, estou editando o projeto e quando ficar pronto, divulgo nas redes sociais.

iBahia - Você se arrepende de ter deixado de lado o Márcio artista para assumir a Secretaria de Cultura?Nunca deixei de ser artista, inclusive acredito que o artista sempre esteve presente iluminando o secretário. A verdade é que tive pouco tempo para assumir atividades artísticas, mas em nenhum momento me arrependo de ter assumido a Secretaria. Sou feliz porque pude colocar a Cultura da Bahia em pauta de discussão política. Acredito que fiz uma boa gestão.

Publicada no IBahia em 06/07/2011

27.6.11

AOS FILHOS


Arte é poder que o homem tem

De produzir maravilhas

E encantar outros homens

Poesia é quando a maravilha tem refinamento e leveza
De tal sorte especiais que penetram além dos olhos
Dos ouvidos dos sentidos
Por sendas despenhadeiros sem cair ou se ferir

E passam e chegam intactas a pontos
Que o homem não sabe
Quando desfecha a poesia

A maravilha projetada penetra na alma do outro
E lá para sempre fica
mesmo que o alvejado não saiba

Mesmo que não saiba o alvo
ele não nunca mais será
O que fora até então

Será novo e encantado
Por algo tão fino e sutil
Que o mundo antes olhado
Se parece diferente

Com olhos de maravilha e de poesia repletos
Agora percebe no escuro
O brilho de imensos sóis
Que geram novos princípios
Novos mundos novas eras

Tudo novo

Como a chuva
que pinta tudo de novidade
O chão o céu os limites o amigo
O que não sei não sabes e não sabia

Poesia pinta com novas cores
Um arco íris brilhante
Que um filho carrega sempre
Guardado na palma da mão


Salvador, 30/01/2000

17.6.11

BRINCANDO DE SER LATINO AMERICANOS

Viajamos 30 horas. Aeroporto, avião, aeroporto, avião, aeroporto, avião, aeroporto, van, estrada. Salvador, São Paulo, Panamá, Guayaquil, Manta. Então o teatro. Um teatro coberto de cortinas vermelhas. Toda a platéia, uma possibilidade de palco e cena.
platéia do Teatro Chushig
O Teatro Chushig, teatro da universidade administrado pelo grupo de teatro La Trinchera. Coletivo que completa este ano, 29 anos. Quatro atores e um técnico. Administram, fazem a bilheteria, montagem, limpeza, cantina, escrevem, encenam, atuam, promovem um festival internacional de teatro há 25 anos e um de dança, há 12. Também trabalham com crianças e jovens, em grupos de formação. Tudo isto é teatro.
Estou aqui acompanhando a artista Cristina Castro. Ela veio com o grupo que dirige, Viladança, apresentar José ULISSES da Silva e dar oficinas em quatro cidades, num circuito de festivais. ULISSES fala do herói em viagem urbana em busca de sua Ítaca, a saída.
A emoção de entrar num teatro da América Latina, coberto de cortinas vermelhas, com pouco mais da metade da platéia ocupada por um público que pagou três dólares por ingressos, comprados na mão de Rocio Reyes, atriz da companhia, que pouco antes – e ainda durante – recortava jornais, numa mesa do salão de entrada do teatro, para fazer a pasta de imprensa do festival.
Rocio Reyes
Outra parte do público era de crianças, índigenas equatorianas litorâneas do Pacífico. Eram dos grupos de formação em teatro e estavam muito felizes de estar alí, com seus orientadores, compartilhando o espetáculo de dança contemporânea, do grupo Cortocineses, da Colômbia. Esstavam muito felizes de estar num e fazer teatro. Apresentaram-se: Fabian, Welington, Edson e seus colegas. Atores entre os dez e os 13 anos, mais ou menos. Falavam conosco, os brasileiros, sobre a experiência de ter visto na noite anterior um espetáculo peruano sobre lo cuerpo humano, diziam. Sabíamos que os atores se apresentavam nus na abertura mas isso não foi dito. E o não dito colocava em seus olhos um brilho especial de marotice e transgressão.
O que estavamos fazendo alí, naquela cidade da costa pacífica, naquele teatro de cortinas vermelhas, gerido por um coletivo teatral quase familiar de tanto tempo juntos, de tantas tarefas compartilhadas; com aquele público equatoriano, aqueles garotos atores? Me emocionava tudo isso. Essa permanência da possibilidade de ser humano e compartilhar emoções, imagens, fantasias coletivas, reflexões sobre o mundo, tentativas de transformação.
Ao mesmo tempo pensava em como as companhias de aviação tentam ganhar cada vez mais, como tudo no mundo real é bandidagem; quando se extravia uma mala num voo, não é dito ao passageiro que ele tem direito a uma taxa, a título de seguro, para que possa comprar uma muda de roupa, escova de dentes e sabonete, para ser um pouco civilizado, enquanto sua mala é encontrada. Em como a bandidagem está nas mínimas coisas. Em 20 reais a mais que você pode pagar para sentar em lugares no avião com alguns centímetros a mais entre você e a cadeira da frente, para que se possa colocar um leptop no colo e aproveitar o tempo do voo e continuar a trabalhar, escrever, fazer contas, planilhas, projetos, relatórios. De outra forma, por 20 reais a menos você coloca o computador na barriga, quase tocando o queixo e se vira com braços, mãos e dedos, para ocupar-se no tempo do voo.
Pensava no que o espetáculo me dizia: como é difícil ser latino americano, numa partida de futebol, numa sala de migração onde (não) se consegue o visto para um país do norte por sermos latino americanos, portadores de toneladas de cocaína que se esparramam, num ato brutal do ator (negro) do coletivo colombiano que joga uma pacote de papel pardo no chão, num diálogo com um embaixador colocado na platéia, o nosso lugar, e espalha o pó pelo palco inteiro com um grande cartão plástico, repetindo o gesto de bater fileiras dos usuários. Depois se joga no chão e se mescla com o pó branco, seguido por todo o grupo, numa coreografia desesperada.
Aquilo somos nós. Uma voz chamava os números da senha em francês e inglês, fazendo com que os personagens perdessem sua vez. Por fim a voz anuncia que a embaixada está fechada, que voltem amanhã, das sete as 18 horas.
Pensava e via aqueles meninos.
Edson
Depois dos aplausos, depois do palco vazio, enquanto os técnicos desmontavam o cenário e refletores, dois garotos subiram à cena e, divertindo-se muito, imitavam os gestos dos atores, as coreografias. Brincando de ser latino americanos e se divertindo muito com isso.

Manta, 17 de junho de 2011.

6.6.11

O BANDO SE REPENSA

foto de Rejane Maia em WoyZÉck (1993) - Isabel Gouveia
texto escrito em 2005 faz muito sentido agora:

o bando de teatro tem sido uma construção permanente. não só de espetáculos e eventos. uma construção de pessoas. e a questão é: quando uma pessoa está inteiramente construída? quando se diz: está bem, paro por aqui? creio que não se diz. que não há uma baliza, um limiar. a construção de uma pessoa dura o tempo de uma vida. e posso ver isso claramente nesses atores. alguns desistem do bando mas não de sua própria construção. trilham outros caminhos, diversos até do que vinham traçando para caminhar, mas a construção não se interrompe. e a marca do bando é visível, as vezes no alicerce, na base, as vezes nas paredes, na cumeeira... as vezes é uma marca incômoda, que tentam cobrir com novas marcas, novas atitudes, novos credos. mas permanece.

é bonito vê-los crescer. poder acompanhá-los em seu crescimento. até onde agüentarão? as vezes é doloroso, mas é necessário. é bom ver as fitas de vídeo antigas e ver como eles faziam seus personagens. ver os atores que já não fazem mais aqueles personagens e o que resta deles em como outros atores os fazem agora. ver que marca profunda deixou o criador em sua criatura, que torna impossível dizer certas falas sem samplear sua inflexão, fazer uma ação sem reproduzir o gesto antigo, levado pelo ator que já se foi. tem também os que já não fazem mais personagem algum, a não ser o seu próprio, no dia a dia. onde andará fulano? e o que fulano deixou em nossa própria construção? às vezes, encontrar fulano em outra esfera, em outra gira, em outra roda. e reconhecer fulano. e reconhecer o bando em fulano que já não é mais bando e nem ator mais quer ser. mas é pessoa.

o repertório é o patrimônio de um grupo. é através dele que se reconhece sua identidade. e poder mantê-lo vivo é um privilégio e um bem. neste jogo de construtor e construção, repertório e grupo se confundem. um faz o outro e vice-versa. e, mais uma vez, um prazer enorme ver o ator fazer cada dia um novo personagem e voltar ao anterior no dia seguinte. ver como o ator é moldado pelo personagem, como esse faz de seu criador uma pessoa melhor a cada dia em que atua bem.

o bando não tem regras, não tem um método que o aprisione. seus métodos e suas regras são recriadas diariamente. dia a dia refeitos porque dia a dia nos refazemos, reconstruímos. nos repensamos e revemos saídas para nos tornarmos pessoas melhores, cada vez que subimos no palco e somos artistas.

salvador, 07 de janeiro de 2005
marcio meirelles

30.5.11

RESPEITO AOS MAIS VELHOS

foto: João Milet Meirelles

O projeto RESPEITO AOS MAIS VELHOS, de manutenção do Bando de Teatro Olodum, patrocinado pela Petrobras, através de edital de 2007, previa, ao fim de dois anos de atividades diversas, a construção de um espetáculo baseado na pesquisa e nas vivências do grupo com comunidades, lideranças e artistas negros mais velhos, conhecedores dos efeitos do tempo e da necessidade da memória.

O tema, Respeito aos mais velhos, evidenciou a necessidade de respeito ao próprio tempo. O tempo nas dimensões cronológica e simbólica, e a percepção de sua passagem e de sua permanência, como fatores físico e mítico.

As heranças das culturas de nossos ancestrais negros estão preservadas especialmente nos ritos e liturgia das religiões de matriz africana. Mas também no cotidiano de outros coletivos culturais e artísticos, com quem o grupo se relacionou durante o cumprimento desta etapa.

A construção da peça que falasse sobre isso, passava também pela construção de uma metodologia de trabalho diferenciada que agregasse ao processo teatral, de alguma maneira, aquelas formas de repasse de conhecimento silencioso dos terreiros, das rodas de capoeira, e – por paradoxal que possa parecer – de outros saberes de transmissão oral. É que estas oralidades afrobrasileiras estão preservadas também em gestos, atitudes, maneiras que se reproduzem pela observação do que é dito e do que é silenciado. Do como e porquê as coisas são ditas ou silenciadas.

Por outro lado, o espetáculo deveria dialogar com uma platéia, não necessariamente formada nesses assuntos e nessas tradições ou sequer informada sobre eles. Uma platéia contemporânea acostumada com a velocidade: a negação do tempo. Platéia formada pela dinâmica de uma sociedade que encara a morte como um fim e a velhice como nada mais do que o caminho para isto – ao contrário da tradição africana que considera a idade como um acúmulo de experiências que nos prepara para a passagem de uma vida para outra – uma sociedade que considera a juventude como um valor em si, e que é preciso preserva-la a todo custo, num frenesi de consumo de fórmulas mágicas, cosméticas, cirúrgicas e comportamentais, para a consagração da eterna juventude. Era para essa platéia que também queríamos falar.

A escolha de uma linguagem dramatúrgica oriunda das redes sociais e da cultura internauta, e o uso de tecnologias audiovisuais pareceram adequados para se conseguir esse fim por que neles se identificou também uma convergência com as formas de expressão das comunidades matriciais que forneceram generosamente material para a construção da peça. O tempo, em sua permanência, está representado no espetáculo pelo passado em imagens e depoimentos gravados, presentes no momento em que atores e câmeras produzem e reproduzem imagens e discursos – narrativas engendradas pelo contato com esse passado – ao vivo, em comunhão com a platéia.

Isso deu certo. O espetáculo emociona os jovens, que se sentem levados para outro tempo. E os mais velhos e iniciados no candomblé, que sentem-se respeitados e representados na peça.

Essa opção estética, no entanto criou dificuldades para levar a peça às cidades onde o grupo passou e colheu material. A necessidade de um espaço específico de 20 metros por dez, com platéia dos dois lados diminuiu as opções de viagem: apenas o Rio, ofereceu um espaço assim. Por outro lado, os equipamentos de som, vídeo e computação necessários à reprodução das imagens e sons gravados, encareceram cada apresentação, tornando inviável – dentro do orçamento do projeto – mais três temporadas em diferentes locais.

A solução, entendida e aceita pela Petrobras, foi fazer mais uma temporada em Salvador e trazer as pessoas e instituições que ajudaram o Bando a montar a peça. O que foi um acerto porque, ao se mobilizarem para vir, um grupo interagia com outro. As prefeituras ou instituições que apoiaram a ida do projeto para suas cidades, voltaram a apoiar a vinda desse público para Salvador e muitos gestores públicos acompanharam as caravanas. O que mostrou ao poder municipal a importância da cultura negra e a necessidade de sua aproximação com ela, através dos mais velhos, das entidades matriciais, dos terreiros, dos mestres, dos afoxés, grupos de capoeira, blocos afro.

Os encontros entre os visitantes e seus semelhantes locais também foram de uma riqueza muito grande, gerando possibilidades de intercâmbio e troca de experiências e conhecimentos entre eles.

Por tudo isso, consideramos o projeto vencedor e acertada a escolha da Petrobras ao patrocinar uma ação continuada, um programa, não apenas um evento, como uma montagem ou uma turnê. O avanço na pesquisa da linguagem e na busca de diálogo com um público específico foi fundamental para o desenvolvimento do Bando de Teatro Olodum, o que o levou a contribuir mais uma vez, tarefa de toda ação cultural, com o desenvolvimento da sociedade, elaborando e implementando políticas afirmativas para a elevação da autoestima dos idosos e dos tradicionalmente excluídos ou perseguidos e para a redução da discriminação racial e da intolerância religiosa.

salvador, 30 de maio de 2011

22.5.11

O teatro e as novas tecnologias

Creio que a Universidade Federal do Recôncavo cumpre, no momento, para a cultura baiana, o mesmo papel que a UFBA nos 1950s/60s, com a implantação de seus cursos de arte. Ferve algo em Cachoeira/São Felix de muito positivo. e que dará resultados em breve.
Fui convidado para falar para os alunos de Artes Visuais e Audiovisual sobre a minha busca no campo do diálogo entre teatro e novas tecnologias. O papo vai ser dia 25/05, quarta feira próxima, entre 14 e 15h, na Sala 13 do CAHL-UFRB, Rua Maestro Irineu Sacramento, S/N, Centro, Cachoeira - BA.
o papo vai ser em torno do que se segue:

BENÇA, espetáculo do Bando de Teatro Olodum
foto João Milet Meirelles

O teatro só é possível se for necessário. Essa é a grande questão que o mundo contemporâneo faz a nós: Que teatro é necessário?
Temos uma sociedade cada vez mais fragmentada e setorizada, territorialmente – no sentido mais amplo que território possa ter – e setorialmente. Então teremos um teatro fragmentado, territorializado, setorizado, dirigido a pequenos públicos que estejam naquele território, pertençam àquele setor ou grupo ou falem aquele idioma ou dialeto...
O teatro de Shakespeare, por exemplo, congregava num mesmo espaço as elites, os comerciantes, o povo... Ou seja, toda a sociedade estava ali e as peças tinham que se dirigir a toda ela. Hoje, nem o teatro de rua consegue esse feito. As elites não estão nas ruas. Talvez a televisão consiga isso territorialmente... Mas, mesmo a televisão e o audiovisual estão se setorizando, vamos dizer assim, e sendo realizados, cada vez mais por todos para alguns. É o caso do Youtube, dos blogs e de todas as redes sociais: você produz seu discurso e o disponibiliza para todo mundo ou para sua comunidade. E aí vem uma outra questão contemporânea, a reprodutibilidade dos discursos e seu alcance, a capacidade de se reproduzir, dialogar em diversas mídias e alcançar qualquer um, em qualquer lugar.
O mundo do teatro depende da presença física de assembléia e orador e do tempo real. Todos estão aqui-e-agora juntos para, através do compartilhamento de emoções, discutir questões da comunidade.
Talvez tenhamos que repensar então a natureza do teatro, considerar a presença virtual como um fato do século XXI e assumir o tempo real da internet. Muitas experiências já estão sendo feitas no mundo. Talvez este seja um caminho.

APRESENTAÇÃO

Há 20 anos dirijo o Bando de Teatro Olodum, e sou responsável pela maioria de suas criações. Nelas perseguimos a construção de novas narrativas. A montagem de textos clássicos, como Sonho de uma noite de verão ou Ópera de três vinténs ou Woyzeck, são também exercícios e pesquisa para a criação de nossas narrativas.

Há algum tempo temos trabalhado na construção de uma dramaturgia que dialogue com as novas mídias e suportes e que trabalhe com a dramaturgia das redes sociais. Venho investigando a tempos os roteiros e discursos fragmentados que surgem das discussões nas redes. Vejo aí um rico material dramatúrgico, mas que depende de atores aptos a dialogar no palco com as novas tecnologias.

O trabalho comemorativo dos 20 anos do grupo chama-se BENÇA. É um tributo à tradição, ao poder do tempo e aos mais velhos. Mas é um espetáculo/instalação que usa a tecnologia como parceira dos atores em cena. Começamos a experimentar ações na internet. A princípio apenas colocamos fragmentos de ensaios, fotos e informações no Youtube, em sites, nas redes sociais e no blog do grupo. Geramos algumas discussões sobre os temas e inserimos formas narrativas dos fragmentos dessas discussões na peça.

O projeto que estamos desenvolvendo agora: trilogiaRemix.DOC_aquartapeça, começa a ser construída, de forma colaborativa. Além dos artistas que fazem parte do grupo, outros têm participado do processo: fotógrafos, roteiristas, músicos, cineastas. Também temos tido a presença ativa de moradores do Centro Histórico de Salvador, território urbano, sobre o qual se fala na peça. Os ensaios estão sendo acompanhados online via twitter, com interação e diálogo com internautas. Assim, mobilizamos uma comunidade interessada em debater questões raciais, de gênero, de exclusão, de violência, a partir do teatro.

Estamos implantando um laboratório de pesquisa de tecnologia e narrativas e vamos apresentar um relato dos processos e métodos de trabalho implementados para alcançar os resultados esperados: o envolvimento das comunidades interessadas em nosso discurso e a difusão virtual dele para quem não pode companhá-lo presencialmente; e a redescoberta da necessidade do teatro simultaneamente como arena de debates e de divertimento.


19.5.11

DO FACEBOOK


‎"Só 7% dos brasileiros foram ao teatro em 2010, segundo pesquisa da Fecomércio-RJ. O levantamento, feito com mil pessoas em todo país, revela que não é o preço que afasta o público dos palcos, mas sim a falta de hábito, citada por 42% dos entrevistados. "
há 10 horas ·  · 

    • Marcio Meirelles gostaria de saber dos amigos aqui do fb: por que vc NÀO vai ao teatro. na boa, acho q esta pesquisa devia ser feita. sabemos qual o nosso público, mas n pq n temos público. o q afasta as pessoas desta linguagem?
      há 10 horas ·  ·  2 pessoas

    • Mônica Santana Sempre me pergunto disso. Convivo tanto com artistas, como com comunicadores, profissonais liberais e noto sempre que as pessoas que consomem cinema, shows, livros, até mesmo cds (essa coisa pouco comprada hoje em dia), raramente vão a teatro. Não está no hábito.
      há 10 horas · 

    • Ricardo Cavalcanti 
      Deixando de lado os discursos apaixonados dos que gostam, para o que o teatro oferece, o preço influi muito sim, em não se criar o hábito de ir ao teatro, mas existem outros motivos para isso: a falta de criatividade das peças (a maioria está cheia de personagens esteriotipados ou falta originalidade); a pobreza da produção, sonorização e dos cenários se comparado a novelas, filmes e shows musicais, seus concorrentes diretos; a localização e manutenção dos teatros, sem estacionamento seguro, etc...(será que funcionaria num shopping?). Poderia citar mais, mas para encerrar, por enquanto, é preciso um bom motivo para tirar a maioria das pessoas de casa à noite, principalmente os que trabalham, criem o motivo e as pessoas responderão.

      há 9 horas · 

    • Lu Alencar 
      Márcio, acredito que deveria existir uma política de sensibilização do público, diferente do que seria "formação de platéia", ou seja, deveria haver uma maior diálogo entre cultura e educação, havendo uma disciplina na grade curricular das escolas para que os alunos do ensino básico vivencie a arte. Como os pontos de cultura que já vem exercendo essa função. A segmentação dos teatros também vejo como uma alternativa para que o público crie uma identificação com o lugar, como por exemplo, o próprio Vila Velha que se dedica a temática afrodescendente. As biliotecas e espaços culturais em geral também poderiam ser locais que programassem espetáculos que por alguma dificuldade de pauta não possam de início entrar em circuito. Bom, são algumas possiblidades que identifico para o problema.

      há 9 horas · 

    • Sérgio Cerviño Rivero 
      O X... Como fazer essa cultura virar cultura pras pessoas? Não é pelo preço...Teatro tinha que ser matéria nas escolas... Vai pela formação escolar e familiar... Eu cresci indo no Tablado... Mas tem tb uma outra coisa... Não seriam o cinema, o CD e o livro produtos mais avalizados pela chamada elite intelectual e o mercado mesmo...? E atingiriam uma outra faixa de publicização muito mais agressiva? Afinal, onde se veicula teatro na BA? Comparem com o cinema, livro e CD... São produtos como pasta de dente hj... Me impressionou ver, no RJ, a campanha pra lançar tal livro da série Harry Potter... Banners imensos, de 10 em 10 metros, por toda a Atlântica, no canteiro central entre as pistas... A questão tb da crítica e resenhistas... Quilos de blogs sobre cinema e livro... E sobre teatro? Eu acho que a questão tá muito na 'venda' do produto mesmo... E, claro, a especificidade baiana... Quer queiramos ou não, na cabeça das pessoas a marca registrada 'filme americano' é carimbo de qualidade... Pelo menos, tecnicamente falando... O mesmo com o livro... Vc se depara com um Cia das Letras, um Cosac & Naif, vc já olha de outro jeito... Teatro na BA tb tem marca, grife: TVV, FG, MM, Cacilda, Simões... Falta inserir na educação esta cultura e falta chancelar, de maneira agressiva, local e nacional, este produto... Agora, $$ tb é um meio necessário pra isso...

      há 8 horas · 

    • Daniel Arcades 
      Li o que Marcio Meirelles tinha colocado no facebook e na aula de português perguntei aos meus alunos o porque eles nunca foram ao teatro (80% da turma do 1º ano do E.M. nunca tinha ido). Ouvi o seguinte comentário: Ah, professor, teatro não tem controle remoto. Se a peça for ruim, não tem como mudar. Vou levá-los para assitir o Shirê Obá. Acredito que o processo educacional pode ajudar muito na construção deste hábito. Acho que a mídia também pode influenciar muito esse processo. Não sei, às vezes penso que o teatro tem que invadir a mídia também. Estou pensando muito no controle remoto do meu aluno...

      há 8 horas ·  ·  3 pessoas

    • Allexa Vieira Lamentável estatística! Teatro relaxa, descontrai, e, principalmente, ajuda a desenvolver o espírito crítico.
      Dramas, comédias, musicais...tem pra todos os gostos!!

      há 7 horas ·  ·  1 pessoa

    • Sérgio Cerviño Rivero ‎... Aula tb podia ter controle remoto... pra zapear os alunos... e eles zapearem os professores...
      há 4 horas ·  ·  1 pessoa

    • Sérgio Cerviño Rivero Aliás, a vida é uma zapeação só...
      há 4 horas ·  ·  1 pessoa

    • Daniel Arcades 
      É, nossa ousadia com a zapeação é extremamente necessária, embora achemos que ela só caiba em alguns espaços já determinados para isso. A vida deveria ser uma zapeação só... em busca de dias mais felizes. O problema é que na vida de alguns o sinal pega alguns canais, enquanto "a vida " traz 1000 canais para você escolher. Voltando ao teatro...Aqui em Alagoinhas, tivemos uma melhora de público com a ampliação da mídia Alagoinhense, o teatro começou a aparecer nas revistas locais, nos jornais locais, na rádio e acredito que o fator mais importante é um engraçado: quase todos os atores da cidade trabalham com educação, são professores na cidade e começam a levar muitas pessoas ao teatro. Pena que esses professores não conseguem montar mais do que dois espetáculos por ano e não conseguem criar um hábito do teatro, pois a comunidade escolar de Alagoinhas, junto com os pais, parentes, vão duas vezes ao ano ver a peça do professor. Alunos do anos finais do Ensino Fundamental principalmente, o Ensino Médio é mais difícil, acredito na ideia da formação desde a base inicial da educação para desenvolver a sensibilidade com as artes mesmo. O povo que faz teatro por aqui deveria ter tempo ou mais pessoas, para zapearem mais peças de teatro. E os alunos usarem o controle remoto a cada fim de semana.