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15.5.11

O ATOR E O PERSONAGEM

Começamos a Oficina de teatro pra quem gosta de rock'n'roll.
1o dia da oficina
Uma coisa que sempre vem à tona é a questão do personagem: ele ou eu ou eu + alguma coisa - a consciência do rei?
Daí resolvi postar este artigo que escrevi para a extinta revista Cenário, do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Diversão da Bahia (por onde anda? qual a função?).

O ATOR E O PERSONAGEM

De onde vem os personagens? E o que são os personagens?

São seres viventes como nós, mas diferentes. De outra textura, de outra densidade. São seres compostos, fabricados. Clones de outras criaturas.

São vivos, disso não resta a menor dúvida. Existem.

Estão espalhados por aí. Feitos, como nós da mesma matéria que os sonhos. Feitos de desejos, pensamentos, reflexões, questionamentos, dúvidas, asserções, carne, suor, excremento. Feitos de um trabalho diário de buscas, investigação sistemática, construção de modos, gestos, sons.

Um personagem é como um instrumento que deve ser tocado pelo ator. Um instrumento construído com seus próprios ossos, carne, pele, sangue e energia.

Esse estranho engenho - o personagem - é arquitetado por um conjunto de artesãos, que juntam vasto material diariamente, para tal fim. Recolhem-no de leituras, de vivências, de memórias, de ouvir dizer, de ter visto hoje à tarde, de ter sentido, ou pressentido ou intuído.

Esse material recolhido pelo ator, junto com outros atores, autor, diretor, coreógrafo, cenógrafo, figurinista, iluminador, é armazenado no seu próprio corpo - que pensamento e emoção e sentidos também fazem parte do corpo - e colocado em camadas superpostas até que o instrumento personagem esteja pronto.

Uma vez pronto começa o trabalho de afinar e aprender a tocar. O ator tem que aprender a extrair dele todas as possibilidades que ele guarda em si, todas as maravilhas capazes de surpreender a platéia e encantá-la. Esse aprendizado é o mais doloroso, porque quase solitário. O ator segue sozinho atado inexoravelmente a seu instrumento, sendo um só com ele - ele e seu corpo - descobrindo as sonoridades que é capaz de produzir.

O diretor e os colegas podem alertá-lo de certos sons que são adivinhados. De certas possibilidades entrevistas por instantes. Mas ninguém pode ensiná-lo a tocar.

O público as vezes é a chave para isso. Quando o ator faz soar seu instrumento e este som ecoa, o eco é produzido na platéia, e assim, as vezes, ele começa verdadeiramente a se escutar. E só então seu personagem está completo. Quando o ator finalmente escuta, vindo da platéia, o eco - reflexo correto do som que emitiu.

A eficiência desse trabalho duro que o ator executa diariamente e sempre, depende mais de sua vivência do que de sua técnica, de uma ética que de uma estética. Depende da consciência que ele tem de seu papel. Depende basicamente de ele, ator, saber o que quer, de que lado está e de porque se propõe a juntar uma audiência toda noite para vê-lo.

Alguns atores o fazem por um exercício de vaidade e são grandes e nos dão, às vezes, enorme prazer. Mas prefiro, à esses, aqueles outros que o fazem por uma questão vital de estar entre os homens. De estar em frente ao outro diariamente afirmando sua condição singular de ser humano que questiona o porquê das coisas serem assim, e não como poderiam ser.


Salvador - 06/03/97

Marcio Meirelles
In Cenário, Ano 1 – nº 4, janeiro/1997

1.5.11

JOSEFINA, A DOS RATOS

Em 1990 montei Josefina, a cantora dos ratos para a CIT - Companhia de Investigação Teatral - formada por Clecia Queiroz, Yulo César, George Mascarenhas e Nadja Turenko, depois substituida por Tereza Araújo. Era um grupo formado por atores/produtores que convidavam diretores para desenvolver projetos com eles.
A peça foi baseada no conto Josefina, a cantora ou o povo dos ratos, escrito por Kafka em 1924 (que recomendo seja lido sempre).
Em 1997 revi o artigo que escrevi para o programa da peça e ele foi publicado no jornal Soterópolis.
Quando montei Josefina, meus filhos tinham 5 e 6 anos. Quando revi o artigo, eram adolescentes. hoje são jovens adultos.
Aí está o artigo.
George Mascarenhas - 
- um das "Josefinas"

ACHO QUE ESTE NÃO É UM TEMPO
DE METÁFORAS
Acho que este não é um tempo de metáforas. É um tempo real em que é necessário falar, tomar posições. É um tempo em que o artista é necessário mais do que nunca. Em que o artista tem que assumir a sua condição de arauto, de instigador, de antena parabólica, captando e colocando no ar o dia a dia que é mais fantástico e dramático do que a mais fantasiosa imaginação possa criar.
É preciso colocar esse personagem em cena - o artista - e discutir sua fragilidade e sua grandeza, suas possibilidades e seus delírios, suas carências e pirraças, seu poder de sedução e a real necessidade que tem dele uma sociedade em crise. Mas é preciso que se faça isso com uma visão crítica, não com excesso de vaidade e amor próprio inflamado. Talvez com muitas dúvidas a nosso próprio respeito.
Acho que neste momento a palavra se faz necessária, a discussão, a descoberta de novos caminhos para a felicidade geral.
Este é um tempo sem ideologias, sem causas, um tempo em que o poder supremo de duplicar a vida foi conquistado. Em que a gente perde o interesse em acompanhar as notícias sobre crimes monstruosos contra o cidadão porque já se sabe o fim da história. Um tempo em que os clones e a impunidade ocupam lado a lado as notícias dos jornais.
É um momento muito difícil, um momento terrível. Todas as antigas crenças e certezas estão desmoronando. E as novas não respondem às imensas questões que me colocam meus filhos pelo simples fato de existirem, crescerem, serem humanos e terem um futuro absolutamente imprevisível pela frente.
Eu tenho tantas dúvidas e tantas questões quanto meus filhos adolescentes.
A única coisa que penso no momento é: algo tem de ser feito. Temos que abrir caminhos novos. E temos muito pouco tempo.
     Venho construindo, com todas essas questões e desafios, um caminho para mim, não uma resposta. Não precisamos de respostas, precisamos de uma saída. A saída para mim é o teatro, esse jeito coletivo de se construir coisas novas e refazer velhos sonhos, essa forma única de estar em convívio com outros homens, de gerar e resolver crises, de dizer coisas antigas de uma maneira única e viva e efêmera. Essa única forma e ato de amor.
15-03-97

30.4.11

OFICINA DE TEATRO PARA QUEM GOSTA DE ROCK'N ROLL



Orientador: Marcio Meirelles
Período: 9 a 27 de maio
terças, quintas e sextas / 15 às 18 hs
Valor: R$ 250,00
Faixa etária: a partir de 16 anos.

O interessado precisa enviar currículo com as principais 

atividades realizadas nas áreas de teatro e música. 
Indicar se toca algum instrumento e qual.
Todas as aulas serão registradas em áudio e vídeo, 
o aluno precisa assinar termo de liberação

Inscrições: 14 às 18hs, seg a sex. 71 3083-4616
Documentos necessários: foto 3 x 4, rg, cpf.
Pagamento em dinheiro ou cheque.
Marcio Meirelles: Diretor teatral, cenógrafo e figurinista. 

Começou a fazer teatro universitário como atividade política 
em 1972. Há 35 anos, com Maria Eugênia Milet, criou 
o grupo Avelãs y Avestruz e há 20, com Chica Carelli, 
o Bando de Teatro Olodum. Em 1994, iniciou, com muitos 
artistas, entre eles Ângela Andrade, Marísia Mota 
e Cristina Castro, a reforma e revitalização do Teatro Vila Velha, 
que hoje é um grande centro de formação, criação, 
intercâmbio e difusão das artes cênicas. Ganhador de vários 
prêmios como diretor, cenógrafo e figurinista, também já dirigiu 
vários shows de música, comemorativos de entrega de prêmios 
e de lançamentos de projetos. Seus trabalhos mais recentes 
realizados como encenador foram: “Cabaré da RRRRaça” 
(com estréia em 1997 e sendo apresentado até hoje), 
“Sonho de uma noite de verão”, espetáculo vencedor do 
prêmio Braskem de Teatro de Salvador (2006) e “Bença” (2010), 
para o Bando de Teatro Olodum; “Fausto#Zero” (1999) 
e “Cartas abertas” (2006), para a Cia Teatro dos Novos; 
“Um Tal de Dom Quixote” (1998) e “Oxente, Cordel de Novo?” 
(2003), para os dois grupos; “Material Fatzer” (2001) e “Auto-retrato 
aos 40” (2004) com os grupos residentes do Teatro Vila Velha; 
e “A Roda do Mundo” (2001), “Candaces - a reconstrução do fogo” 
(2003) “eBakulo – os bem lembrados” (2005) para a Cia dos 
Comuns 
(Rio de Janeiro).